Não é política…

Eu estava escrevendo A luta corporal em São Luís do Maranhão e houve lá um conflito político, onde mataram um operário e eu vi, na praça. Eu era locutor da Rádio Timbira. Quando no dia seguinte pela manhã eu cheguei na rádio, tinha uma nota do governador, dizendo que os comunistas tinham assassinado o cara. Eu me neguei a ler a nota. O diretor veio, implorou, disse que iria me demitir se eu não lesse. Eu não li a nota e fui demitido. Mas eu não tinha nada a ver com política. Tinha a ver com a dignidade do ser humano, com a verdade das coisas. Então, não li e fui demitido, à toa, como um maluco, um Dom Quixote, por nada. Não tinha ninguém para me amparar, porque eu não estava ligado a nada. O que houve é que o povo da cidade, os jornalistas, ao saberem o que tinha acontecido, fizeram o maior alarde desse negócio e eu terminei virando uma figura popular na cidade, até o ponto de não pagar ônibus, não café no botequim. O povo é grato às pessoas que têm gestos generosos.

Ferreira Gullar, relatando um episódio ocorrido em 1950, em Em Busca do Povo Brasileiro. Artistas da Revolução, do CPC à Era da TV, Marcelo Ridenti, 2014.

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